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CRÍTICA | A FORMA DA ÁGUA

O filme “A Forma da Água” é um lindo conto de fadas, misturado com um filme de monstro absolutamente maravilhoso. Indicado ao Oscar em treze categorias, entre elas, melhor filme e melhor diretor, Guilhermo Del Toro, embora tenha produzido filmes para franquias, nunca se deixou levar ao padrão estético do blockbuster do super-herói de Hollywood. Sempre fanático e apaixonado pelo que faz, em suas obras é capaz de sentir todo seu entusiasmo produzindo filmes fantasiosos e disformes, mas nunca tediosos como Pacific Rim e Colina Escarlate, ou melhor, como a Espinha do Diabo e O Labirinto do Fauno. Agora, finalmente Del Toro retorna com sua incrível sensibilidade e sinceridade em uma obra. Baseado em filmes antigos, quadrinhos, histórias míticas e o principal, sua imaginação visual e ansiosa na criação de longas extremamente originais, como se o diretor tivesse arrancado da profundeza de sua imaginação e dado cor, voz e forma a obra.

Clara referência do longa O Monstro da Lagoa Negra (1945), clássico de terror americano ambientado na Guerra Fria, sobre uma criatura (interpretada por Doug Jones) meio peixe meio humano, descoberta na Amazônia. Na mente de Del Toro a criatura é levada a Baltimore no início da década de 1960, auge da Guerra Fria e mantida em uma base militar de pesquisa do governo, submetido a experiências e a tortura em nome da segurança nacional americana.

Ao contrário do que os cientistas acham, a criatura não é nenhum ser selvagem e abominável, mas sim inocente nas mãos do verdadeiro predador, o homem. O vilão da história é Richard Strickland (Michael Shannon) um agente do governo que captura a criatura levando-a para a base militar a fim de usa-la como arma contra os comunistas russos. Toda tensão do filme pode ser sentido nas cenas de Shannon, onde ele interpreta o melhor e verdadeiro monstro do filme, dando vida a um vilão perfeitamente plausível. Mas o mais importante e especial personagem é Elisa (Sally Hawkins), uma moça muda que trabalha como faxineira noturna da base militar, que toca discos de jazz e alimenta a criatura com ovos cozidos, além de se apaixonar pelo mesmo.

Por causa de sua deficiência – e vista por outros, Elisa se vê como um ser incompleto, menos que um ser humano comum. Seus melhores amigos são Zelda (Octavia Spencer) e Giles um artista gay, cuja carreira foi descarrilhada ao longo do tempo, interpretado pelo veterano Richard Jenkins, dois personagens marginalizados que trazem ao conto uma pitada política.

Como Elisa e a criatura não possuem o poder da fala, eles se comunicam através de gestos e expressão facial, além da interação com a música. Ambos oferecem ao espectador um desempenho silencioso em um filme sonoro, transformando tudo em poesia corporal.
Produzido com cores vivas e sombras profundas, A Forma na Água é brilhante como um musical, sincero como um desenho animado e tão obscuro como uma película noir. Com certeza vale todas as indicações que recebeu.

Jornalista, cinéfila, amante da literatura. Além do CadernoNerd, também faz parte da equipe de redação da Revista Preview.