Crítica | Fome de Poder

“Baseado em uma história real”. É com essa curta e breve frase em um fundo preto que começa a obra “Fome de Poder”, dirigida por John Lee Hancock, e estrelada por Michael Keaton no papel de protagonista.

A obra conta a história de Ray Kroc (Michael Keaton), um simples vendedor de máquinas de Milk-shake que aos 52 anos se vê perdido na vida com um negócio praticamente insustentável. Contudo, ao receber um grande pedido de uma lanchonete localizada em San Bernardino – Califórnia, chamada Mc Donald’s, vê no negócio e na figura de Dick Mc Donald (Nick Offerman) e Mac Mc Donald (John Carroll Lynch) a materialização da “grande ideia”. Assim, é preciso visualizar a maioria dos elementos presentes no filme, sejam em sua narrativa, em sua linguagem ou mesmo no próprio discurso, sob a ótica do momento social, político e econômico dos Estados Unidos da América.

É fundamental saber que na época, por volta de 1954, os EUA estavam entrando em uma fase de estabilidade na qual após ganharem a Segunda Guerra Mundial o pensamento norte-americano foi mudando, e com um sentimento de vitória as pessoas começaram a pensar que mereciam o que a vida tinha de melhor. E isso implicava – com uma constante premissa de posse – serem donas de seu próprio tempo, de seu próprio espaço e rotina. E isso se refletia nos produtos – e consequentemente em suas cadeias de produção – que eram sempre mais rápidos. Assim, a urgência pelo atendimento rápido fez com que os antigos modelos de negócio alimentícios, fossem declinando cada vez mais, e novas alternativas tivessem que ser alcançadas para suprir a necessidade do “American Dream” e do “American Way of Life”.

Foi com essa visão que os irmãos Mc Donald basearam a sua lanchonete. Com um modelo de produção de excelência, que pegava o Fordismo – modelo criado por Henry Ford que elegia a produção em massa de um respectivo produto – para consertar o principal problema da concorrência, o excessivo tempo de espera dos clientes.

O Discurso e o Capitalismo

O enredo começa com um monólogo simples – porém muito significativo para o discurso do filme – no qual Ray Kroc em primeiríssimo plano em um enquadramento frontal e estático dialoga com uma câmera subjetiva ao tentar vender as vantagens de suas máquinas. Ao final da obra o discurso do monologo é reafirmado com elementos destoantes.

Já desde o início do filme é possível notar a cadência de elementos visuais dentro das cenas. Antes do encontro com os irmãos, Ray era simples, dirigia um carro desgastado com roupas gastas e frequentava ambientes que entravam em constante conflito com os frequentadores – algo explicado, aliás, por um dos irmãos Mc Donald.

Porém, quando Ray chega ao Mc Donald’s, percebe a aura diferenciada que é brilhantemente ilustrada pelo discurso cinematográfico ao misturar a linguagem publicitária com a sensualidade típica do capitalismo – ambas ilustradas pela mulher se deliciando com o hambúrguer no estacionamento da lanchonete.

Contudo, com o decorrer da narrativa, os personagens vão tomando proporções contrárias dentro do próprio enredo. Enquanto Dick e Mac permanecem com uma aura simples, focados em seu primeiro negócio e em seu sonho, partido da mais pura e inocente essência, Ray personifica os ideais americanos do capitalismo e da livre concorrência de mercado, que rivalizam com os ideais puros – e completamente sem fins lucrativos exacerbados – dos dois irmãos.

É possível observar a crescente dentro do discurso extra cinematográfico que toma Ray como base em um conjunto de ações. A primeira são suas constantes viagens que ilustram a estética do caminho do homem americano.

Nas viagens, o próprio personagem elucida que passa por igrejas, tribunais e que sente falta de algo mais. Essa seria – a grosso modo – a narrativa de vida do homem americano que alcançou a fé na lei divina, depois a lei dos homens e por fim, o lucro – materializado por seu desejo de transformar o Mc Donald’s em uma rede nacional.

As Dicotomias

O próprio Ray, ao personificar esses ideais, os exemplifica também em suas vestimentas – que assim como o discurso – vão em constante crescente para roupas caras, ternos e restaurantes chiques.

As dicotomias nas ações de Ray tomam proporção também em sua vida pessoal. Nela, Kroc renega todas as escolhas que fez a vida toda e principalmente aquelas que havia feito com Dick e Mac para ter olhos apenas a uma coisa, o dinheiro.

Outro elemento discursivo completamente em dicotomia dentro da obra é o arquétipo do sucesso e do fracasso. Os elementos visuais, a linguagem, a postura corporal e até mesmo as cores presentes nas cenas na primeira metade da obra remetiam a um sentimento frio, de derrota.

Ao contrário da outra parte da obra que – conforme mais e mais lanchonetes abriam em todo o país – mais a postura, as vestes, o modo de falar e até mesmo as cores presentes nas cenas, se modificam em tonalidades quentes, semelhantes as da lanchonete, passando uma imagem de sucesso.

Com um roteiro muito bem adaptado para a função biográfica do filme, o discurso cinematográfico é documental em quase toda sua essência. O grau máximo é alcançado quando algumas cenas, em cortes rápidos e curtos sobreposicionados, são alternadas com cenas reais de clientes, do crescimento da cadeia e até mesmo do próprio Ray Kroc.

Imagem de divulgação

Trilha Sonora

A ambientação condiz em muito com a época em seus mais finos detalhes e a musicalização, apesar de neutra por diversos aspectos, se encaixa bem com as cenas e com a descrição física e psicológica das emoções dos personagens.

A trilha, ao mesmo tempo épica e monumental, coloca em um grande palco a jornada feita por Kroc em sua saga para estabelecer o McDonald’s como uma empresa global, enquanto os ruídos sonoros provocados pelas cozinhas agitadas tornam a ambientação muito mais verossímil com relação a constante agitação do capitalismo.

O título original “The Founder” (O Fundador) coloca em cheque – graças ao discurso e a narrativa da obra – todo o conceito de sucesso e principalmente coloca de maneira crítica e opositora o título e a obra em si. “Fome de Poder” não deixa nada de fora e em seus mínimos detalhes confere a ascensão de um homem que tomado pelo capitalismo conseguiu o sucesso de sua época. A produção chega aos cinemas em 9 de março.

Post Author: Felipe Boschetti

Formado em jornalismo pela Universidade Anhembi Morumbi e pós graduado em jornalismo cultural, redes sociais e marketing, é músico desde os nove anos e ama literatura e cinema. Já trabalhou como assessor de imprensa, revisor, crítico e desenhista, além de redator e produtor de conteúdo para veículos digitais e impressos. Hoje, se dedica a dar vida ao Caderno Nerd como editor.

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