Crítica | Jogo Perigoso (Netflix)

A fim de salvar seu casamento com Jessie (Carla Gugino), Gerald (Bruce Greenwood) prepara o final de semana perfeito reservando uma casa isolada do resto do mundo e tenta “apimentar” seu relacionamento. Após algemar sua parceira na cama, Gerald tem um infarto causado por Viagra fazendo com que Jessie fique presa. O filme é baseado no livro homônimo de Stephen King e está disponível no Netflix.

A direção fica por conta de Mike Flanagan, o mesmo diretor de Ouija 2 e outros terrores bem “nheee”. Na maior parte do filme a atuação é de Carla Gugino e Bruce Greenwood, além de algumas outras aparições de Henry Thomas que interpreta o pai de Jessie. Ambos os três estão excelentes! Carla Gugino caracteriza uma mulher insegura, passiva e bastante dependente, assim como suas cenas de sofrimento são bem desempenhadas. Bruce Greenwood interpreta um homem arrogante, machista e manipulador, seu desdém por cada atitude de Jessie é revoltante. Henry Thomas está impressionante, embora a emblemática cena do eclipse sofra da falta de sutileza pois retrata pedofilia, o ator consegue transmitir muito bem uma certa sagacidade e ingenuidade tornando-o manipulador e malicioso.

Apesar de não haver sequer uma boa fotografia, a câmera tem razoáveis ângulos que retratam superioridade masculina sobre a feminina, vistas por baixo e por cima, consecutivamente.

O papel social é muito bem cumprido. O longa retrata, de forma genial, a superação e o instinto de sobrevivência de uma mulher atormentada por traumas e profundos medos chegando até mesmo a “arranhar” o conceito freudiano do Complexo de Electra sobre as dinâmicas de relacionamento de pai/ marido. A dicotomia representada pelos delírios e as metáforas que simbolizam a objetificação da mulher são muito bem construídos e amarrados, ainda que haja excesso de explicação – isto subestima o expectador. Mas o que realmente matou o filme foi seu desfecho, nos quinze últimos minutos é introduzido um personagem que antes aparentava ser mais uma representação dos delírios de Jessie, transformando o drama de sobrevivência numa espécie de thriller.

Talvez alguns fãs mais assíduos de Stephen King argumentem que o roteiro segue a história original, o que não é de se duvidar, pois é notável nas obras do escritor um padrão “thriller” com nuances sobrenaturais que desencadeiam sempre nas ações humanas, colocando grupos ou indivíduos como os reais vilões, ou seja, é bem provável que o livro seja muito mais desenvolvido. Contudo, o redator que vos fala apresenta somente a visão do filme que é uma obra distinta.Mas pensem, poderia ser pior. Imaginem se a tradução do título fosse fiel ao original em inglês – teríamos algo como “JOGO DO GERALDO”.

 

Post Author: Carlos Gomes

Nerd raíz, humildão e cervejeiro sou formado em Comunicação Social. Sempre acompanhado de uma mochila e um livro, de preferência ficção científica/ social, eu sou um entusiasta da ciência com um profundo amor sobre história e seus desdobramentos sociais. Também sou libriano, embora isto sirva apenas para saber qual cavaleiro de ouro me representa. #teamDohko

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