Crítica | Um limite entre nós

Dois amigos conversam fervorosamente enquanto trabalham como coletores de lixo em uma movimentada rua. Uma câmera panorâmica – com enquadramento frontal e plano geral – ilustra em um tom quase documental a vida dos dois sujeitos após um longo dia de trabalho, voltando com sacos de batata e suas marmitas para casa enquanto algumas crianças jogam beisebol, despreocupadas.

Esse é o início do drama dirigido por Denzel Washington e que mostra a vida de Troy Maxson (Denzel Washington) que vive uma vida simples de coletor de lixo em uma casa nos subúrbios da cidade enquanto sua esposa Rose (Viola Davis) cuida da casa e administra os curtos pagamentos da família.

A princípio, e pelo resto do filme, é possível notar a concordância entre as linguagens verbais e visuais. Dotadas de grande sintonia – e ilustradas pelo sotaque que evidencia um inglês cheio de frases quebradas e abreviadas – a simplicidade das vestes típicas para a época retratada, e muito bem tonalizadas com as construções psicológicas dos personagens, dialoga de forma fluída com o enredo.

Cortes rápidos de câmera que alternam entre primeiro e primeiríssimo plano – ou seja, muito próximos dos rostos dos personagens – colocam a prova à habilidade dos atores que mostram nas desgastadas feições e nos olhos semisserrados os cacoetes e as angústias vividas por eles nos momentos mais marcantes do filme.

A construção do personagem principal, vivido por Denzel Washington, faz jus a indicação ao Oscar de Melhor Ator, uma vez que Troy é um homem orgulhoso e tradicionalista e ao mesmo tempo rude e dilacerado pelo preconceito que vê em todo lugar, bem como pelas decepções que a vida lhe proporcionou, seja pela Grande Guerra Mundial, ou na carreira esportiva.

O sonho de se tornar jogador de beisebol profissional lhe foi negado – fosse pela sua cor ou por sua idade avançada – o que torna a simbólica bola pendurada na árvore de sua casa um marco maior de um sonho frustrado.

Sonho esse que é passado para seu filho que tenta com todas as forças entrar para um time esportivo, a fim de ter uma chance na faculdade. É inevitável, assim, a colisão entre ambos os discursos que preenchem de forma quase certeira as lacunas sociais vividas por distintas gerações.

O filho, como a nova geração que louca por oportunidades vê nos tempos pós-guerra o início da colocação de negros em melhores posições, e o pai, que como figura orgulhosa não compreende como o filho pode acreditar em determinadas mudanças, mesmo o próprio Troy experimentando-as na pele.

As preocupações – também sujeitas ao contexto socioeconômico e a posição social dos personagens – é evidenciada pela acalorada lição dada pelo pai ao dizer que prefere gastar dinheiro com a reforma da casa do que com a última novidade do momento, que no caso, era uma televisão.

Rose, interpretada com maestria por Viola Davis, demonstra suas convicções tardiamente na narrativa, deixando em primeiro plano seu papel de esposa e agindo como uma espécie de consciência para o próprio marido.

A cerca pela metade, construída apenas nos finais de semana, mostra como a vida de ambos estava incompleta, bem como ilustra os propósitos pelos quais ela estava assim. A cerca, para Rose, representava a proteção e a segurança de sua família, e para Troy significava a prisão de seu ser, que ansiava por reviver os tempos de juventude.

Apenas ao final da narrativa, Rose se torna mais independente e segura de si – começando a viver uma vida que tinha deixado para trás, e que o próprio Troy a impulsionou a retomar.

Códigos e Linguagem Visual

Com relação às cores, a neutralidade das luzes, e dos tons nos cenários, cumpre seu papel ao contrastar com os tons alaranjados e marrons das antigas construções, que reforçam a percepção sob o discurso de diversas cenas em contra campo, com cortes secos e direcionados – discurso esse próprio de peças teatrais, e que remontam a origem do enredo.

Os planos comumente retratam movimentos pró-filmicos – geralmente de crianças brincando na rua, enquanto de encontro à casa dos Maxson, vem se aproximando Gabe (Mykelti Williamson) irmão de Troy gravemente ferido na cabeça na 2º Guerra Mundial.

A temporalidade da obra sofre – de maneira perceptível, porém confusa – quebras abruptas na metade da narrativa, muitas vezes não sendo marcadas por nenhuma outra sinalização que o trocar de cenas, o que pode deixar o espectador desnorteado.

Trilha Sonora

A Linguagem sonora é um deleite sobre um drama tão intenso. Os ruídos – geralmente associados a um passarinho cantando nas manhãs ou os carros passando nas ruas, com galhos quebrando ao fundo, contribuem para a narrativa, mas não tanto quanto as músicas.

Um Jazz suave serve de passagem temporal e materialização dos sentimentos dos personagens em momentos de grande tensão. O lirismo da música também exprime o mesmo ao retratar sonhos e esperanças.

A música – composta pelo pai de Troy – é um dos poucos legados do passado violento que o personagem viveu na própria pele e que transposto aos filhos, transborda sentimentalismo com a concretização da ascensão de Cory.

“Um Limite Entre Nós” mostra a ferro e fogo, em uma adaptação bem trabalhada, os limites e delimites que o espírito humano prova e ultrapassa, ou muitas vezes apenas não transpassa, como cercas no caminho.

Post Author: Felipe Boschetti

Formado em jornalismo pela Universidade Anhembi Morumbi e pós graduado em jornalismo cultural, redes sociais e marketing, é músico desde os nove anos e ama literatura e cinema. Já trabalhou como assessor de imprensa, revisor, crítico e desenhista, além de redator e produtor de conteúdo para veículos digitais e impressos. Hoje, se dedica a dar vida ao Caderno Nerd como editor.

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