Corpo Elétrico | Ator e diretor desejam que as pessoas se abram para o não-julgamento

A nova aposta do cinema brasileiro é explorar a liberdade de amar o outro sem amarras e é isso que propõe o filme “Corpo Elétrico“.  Ganhador do prêmio Maguey...

A nova aposta do cinema brasileiro é explorar a liberdade de amar o outro sem amarras e é isso que propõe o filme “Corpo Elétrico“.  Ganhador do prêmio Maguey no festival Guadalajara, no México, tem estréia prevista para o dia 18 de agosto. Conta a história de Elias, um jovem paraibano homossexual que descobre a si mesmo na grande São Paulo. Já conferimos o longa, que passou por diversos festivais ao redor do mundo, e batemos um papo com o diretor Marcelo Caetano. Marcelo foi produtor de um dos filmes mais aclamados do ano passado, “Aquarius“. Também conversamos com o protagonista, Kelner Macêdo, que faz sua estréia no cinema com o pé direito. Confira abaixo.

CADERNO NERD: De onde veio a inspiração para o filme?

Marcelo Caetano concede entrevista sobre sua nova produção, Corpo Elétrico.

Marcelo Caetano concede entrevista sobre sua nova produção, Corpo Elétrico.

MARCELO CAETANO: A ideia do filme era falar sobre encontros improváveis. De um personagem que vem para São Paulo para viver sua liberdade sexual, afetiva e emocional, mas ele acaba tendo que se bancar. E ele passa por uma grande dificuldade de equilibrar o trabalho com sua vida pessoal. Então é um personagem que transita entre essas relações.

CADERNO NERD: Teve algum motivo específico da história se passar em São Paulo?

MARCELO CAETANO: Eu queria falar sobre o meu universo, sobre as pessoas que eu observo, sobre os lugares que frequento… E tem essa curiosidade em relação à cidade que oscila entre uma hostilidade muito grande e um acolhimento.

CADERNO NERD: Como foi feita a construção dos personagens?

MARCELO CAETANO: Eu trabalho pouco com essa ideia de construção de personagem. Eu escolho os atores e a partir dos atores, junto com os atores, eu vou construindo esses personagens que são borrados pelos atores. Tem muita semelhança e muita diferença entre eles.

CADERNO NERD: E como foi feita a escolha do elenco?

MARCELO CAETANO: Eu trabalho com teste de elenco, mesmo, faço casting e sempre que vejo uma pessoa interessante, com quem eu gostaria de trabalhar,  já anoto o nome dela. O ato de fazer casting é constante pra mim e vem muito de gostar de ouvir as pessoas, de gostar de encontrar as pessoas, de olhar no olho, de saber o que a pessoa pensa, como a pessoa pira.

CADERNO NERD: Qual a recepção que você espera receber do público brasileiro?

MARCELO CAETANO: Cada grupo de pessoas desenvolve uma relação diferente com o filme, então varia muito. E eu como fiz um filme muito aberto, muito livre, não estava pensando na expectativa do espectador, mas eu espero que tenha generosidade com o filme. Que o enfrente com frontalidade, que o aceita com frontalidade e com generosidade.

CADERNO NERD:Você tem alguma mensagem pra quem vai assistir o filme?

MARCELO CAETANO: Vá sem preconceito. Não só com os personagens, mas pela forma que a gente tá contando a história. Se permita entender qual é o nosso discurso. É um desejo de jogar junto, sempre.

CADERNO NERD: Como foi a sua preparação para o papel?

KELNER MACÊDO: Eu cheguei em São Paulo da Paraíba em 2016 e a gente começou um processo

Kelner Macedo comenta durante a entrevista sobre como foi se preparar para a produção e posa para foto  .| Foto : Carolina Rodriguez

Kelner Macedo comenta durante a entrevista sobre como foi se preparar para a produção e posa para foto .| Foto : Carolina Rodriguez

individual. Foi um processo muito bonito. Muito difícil, primeiro de tudo, porque eu nunca tinha morado em São Paulo. Meus pais moram aqui e eu os visitava quando era criança, passava as férias e voltava. No segundo mês os outros atores do elenco entraram e a gente começou a criar essas relações. O Marcelo deu muito espaço pra gente nos ensaios pra gente levantar as nossas questões diante de uma situação, fomos co-criadores. Foi um trabalho baseado em encontro, da gente tirar os escudos. Da gente se colocar ali quanto pessoa pra se relacionar com o outro ator como presença. É sempre difícil se abrir, especialmente com quem não conhece e eu precisava me relacionar com todos, pois o Elias é o fio condutor de todos os núcleos. Então foi muito disso, de se colocar diante de uma pessoa sem currículos.

No primeiro encontro a gente não se conhecia e não houve uma apresentação formal. O primeiro encontro foi: a gente não se falou e fizemos um exercício. Marcelo colocou todos os atores numa fileira e um desses atores ia pra frente desse grupo e olhava no olho de todo mundo durante muito tempo. Até entender que se conectou de verdade.

CADERNO NERD: Você fez o teste assim que chegou em São Paulo?

KELNER MACÊDO: Não. Marcelo estava produzindo o elenco de Aquarius e foi pra João Pessoa fazer teste de elenco e me chamaram. Foi como a gente se conheceu. E nesse teste ele achou que eu poderia ter perfil para um filme e me disse “Kelner, eu tenho um projeto pra 2016 e eu não comecei a fazer teste ainda, mas acho que você tem perfil. Eu queria fazer esse teste agora. Topa?” Eu disse “claro” e foi como começou esse contato. Depois nos encontramos em Recife, ficamos um dia inteiro conversando e ficamos em contato durante um ano. Aí ele começou o casting e só no final do ano a gente entendeu que conseguia trabalhar junto. Aí ele me ligou pra fazer o filme.

CADERNO NERD: Como você espera que os telespectadores vejam o Elias?

KELNER MACÊDO: A gente passou por um processo de não julgamento. Não estávamos ali pra julgar essas pessoas, a gente queria se abrir pra isso. O meu desejo é que o público se abra também pra isso, pra entender que a gente não está querendo representar os gays, as travestis, os operários. São subjetividades que a gente constrói para esse projeto, pra poder se relacionar. Eu acho muito bonito o lugar do Elias de se relacionar. É um lugar de não-ciúmes, não-posse dos outros corpos. É um lugar muito fluído. Eu falo que ele é como o mar, sabe, a água vem e vai, algumas pessoas entram nesse mar, modificam o curso das águas, ele deságua em outro lugar e continua o fluxo. Acho isso muito bonito nele e eu queria que as pessoas se abrissem pra esse lugar de não-julgamento.

CADERNO NERD:Você tem alguma mensagem pra quem vai assistir o filme?

KELNER MACÊDO: A gente fez esse filme com muito tesão. Quem topou fazer abraçou o projeto, trouxe pra si e a gente fez com muito amor. Queremos mostrar que essa é uma forma, mais uma possibilidade de se relacionar dentro desse mundo. A gente já nasce com uma caixinha separara pra você e você é indicado a caber numa caixa. O Elias foge disso, ele transborda. É como o mar que vai enchendo e ele não cabe numa caixa, por exemplo. Então é um desejo de que as pessoas se abram para olhar pra isso.

A crítica do filme está disponível aqui.

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